Com miséria em alta, Nordeste vira alvo de Bolsonaro Atualização do Bolsa Família, com incentivo à busca de trabalho, mira também eliminar último feudo do lulismo no país
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Com miséria em alta, Nordeste vira alvo de Bolsonaro

Atualização do Bolsa Família, com incentivo à busca de trabalho, mira também eliminar último feudo do lulismo no país

Região onde a extrema pobreza mais cresceu e o PIB retrocedeu mais desde a última eleição, o Nordeste deverá se transformar no foco principal das políticas sociais de um eventual governo de Jair Bolsonaro (PSL).

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Além de atacar a crise em seus nove estados, que reúnem 1/4 dos eleitores, haverá tentativa de enfrentar a vantagem que o PT”e o lulismo mantêm na região desde 2002.

No primeiro turno, Bolsonaro perdeu para Fernando Haddad (PT) por 26% a 51% no Nordeste. Na projeção de segundo turno do Datafolha, Bolsonaro tem 37% dos votos válidos; Haddad, 63% —Dilma Rousseff teve 71,7% na região no segundo turno em 2014.

O principal vetor para conquistar os nordestinos no pós-eleição será reforçar o Bolsa Família, que chega a 6,9 milhões de famílias no Nordeste (50,7% das atendidas no país).

Sueli Maria Dumonte com seus netos – Bruno Santos – 24.ago.17/Folhapress

Além de aumentar o atual orçamento de R$ 30 bilhões do programa com o fim de incentivos fiscais para alguns setores, uma das propostas é garantir que os atendidos continuem recebendo até 75% do valor dos benefícios (R$ 188, em média) mesmo que consigam algum trabalho.

Estuda-se ainda, segundo a Folha apurou, algo até mais radical: elevar o valor pago aos que conseguirem comprovar aumento na renda por conta própria; e mantê-los no programa até que seus ganhos pessoais ultrapassem um determinado patamar.

A ideia é que haja incentivo aos beneficiários para que procurem trabalho ou que se estabeleçam como “conta própria”, tipo de atividade que mais cresce no país.

Entre 2014 e o ano passado, o total de pessoas na extrema pobreza (renda familiar per capita até R$ 85/mês) disparou no Nordeste (ver quadro).

Em todos os estados, há mais gente na extrema pobreza do que na média nacional. Maranhão, Bahia, Piauí e Alagoas têm cerca de duas vezes mais miseráveis.

Para Adriano Pitoli, diretor da consultoria Tendências, o Nordeste não só sofreu mais com a crise recente como terá uma recuperação lenta quando a economia se reerguer.

No “boom” dos oito anos do governo Lula e até 2014 com Dilma –período em que o PT sedimentou sua força na região–, o Nordeste cresceu mais que a média do PIB”nacional. E as vendas no comércio, o dobro do PIB (8,1% ante 4%, em média).

“Isso levou ao emprego em grande escala de mão de obra pouco qualificada” diz Pitoli.

“Mas dificilmente esse padrão de consumo crescendo mais que o PIB se repetirá nos próximos anos, assim como não haverá o ‘boom’ de crédito que o sustentou.”

A crise no setor público também pegou em cheio a região. Enquanto na média do país 20% da massa de rendimentos vêm de administrações públicas, ela é quase o dobro em estados como Piauí e Paraíba.

Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, um governo Bolsonaro procurará também, com essas ações, tentar eliminar o “último feudo” do PT no país.

“Não há dúvida de que esse projeto de poder passa pelo Nordeste e por investimentos públicos na região”, afirma.

Com a exceção de turismo, energias alternativas e agroindústria em regiões específicas, o Nordeste segue com seu desenvolvimento limitado.

A fidelidade que os nordestinos demonstram a Lula e seus dois “postes” (Dilma e Haddad) nas últimas eleições, argumenta o cientista político Carlos Melo, do Insper, seria resultado do “forte pragmatismo” dos eleitores em relação a conquistas pessoais.

“Se outro chegar e fizer mais, vai levar. O eleitor não é fiel. Ele joga sempre a favor de seus interesses”, afirma.

Para duas famílias nordestinas de Jaboatão dos Guararapes (PE) que a Folha acompanha desde 2005, foi esse tipo de interesse que norteou o voto nesta eleição.

Em uma delas, a de Ronaldo e Sueli Dumont, todos os nove membros aptos a votar o fizeram no PT de Haddad, em quem devem repetir o voto no segundo turno.

Nos últimos 13 anos, os Dumont não só tiveram melhora significativa no padrão de vida por conta do Bolsa Família como, ainda hoje, 17 deles, entre mães, filhos e netos, ainda estão ligados ao benefício.

Atualmente, Ronaldo, o patriarca de 49 anos, é o único dos 23 membros da família (eles eram dez em 2005) com emprego fixo formal.

Na outra família que a reportagem acompanha, de Pedro e Micinéia Silva, não há mais nenhum beneficiário.

Três dos filhos que participaram do programa no passado ultrapassaram a idade limite e o mais novo, Isaac, 6, com síndrome de Down, recebe um salário mínimo do INSS”(assim como o pai, aposentado por invalidez).

Dos quatro filhos, três estão em idade de votar. Dois ainda não tiraram o título e Alan, 18, votou em Geraldo Alckmin (PSDB). No segundo turno, ele pretende anular.

Das 39 pessoas que compõem as duas famílias, Alan, 19, é o único até agora com planos concretos de entrar na faculdade —ele concorre a uma bolsa para formação em gastronomia.

Alan diz que não vota em Haddad porque “o PT roubou” nem em Bolsonaro, por “só querer armar as pessoas”.

Mas na comunidade do Suvaco da Cobra, onde as duas famílias vivem, é grande a expectativa em torno do capitão reformado, apesar de muitos considerarem os anos Lula como os melhores de suas vidas.

Para Alexandre Rands, economista da Datamétrica, do Recife, caso um governo Bolsonaro confirme, na economia real, o otimismo que o mercado financeiro tem demonstrado, suas chances de tornar-se bastante popular no Nordeste –em detrimento do lulismo– são consideráveis.

Rands aposta que, no segundo turno, Bolsonaro ampliará sua vantagem na região, sobretudo nos estados onde a eleição para governador já foi liquidada no primeiro turno.

Fonte: Folhapress

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