Cultural

Baianas e baianos bombam no Instagram em perfis de fotos sensuais

Muito mais que nudes: nu artístico na rede social revela geração mais livre

As inspirações e referências aparecem de todos os lados e épocas. Desde as pin ups e fotografias muito antigas até artistas brasileiros que iniciaram trabalhos semelhantes no Instagram há mais tempo como @henriquecesar, @cesaroliveiracosta e @adaltojr.Nos anos 30, 40 e 50, mulheres fotografadas seminuas em cartazes de espetáculos escandalizavam parte da sociedade americana da época. A ousadia das pin ups transbordava feminilidade e despertava preconceitos. Décadas depois, um fenômeno parecido começou a estourar no Brasil e, recentemente, em Salvador. Tem a mesma ousadia e enfrenta os mesmos preconceitos. Muda só a plataforma: em vez de cartazes, o Instagram.

Lara Beatriz é estudante de Medicina Veterinária e já posou para diversos fotógrafos em Salvador. Essa foto é de Rodrigo Freitas

Graças ao trabalho de jovens fotógrafos apaixonados pela estética do corpo nu, mulheres e homens representam uma geração que vê a nudez com olhar artístico e sem tabus. A maioria dos modelos não é profissional, assim como as pin ups não eram todas Marilyn Monroe. As palavras de ordem são autoestima e liberdade.

Isis Cavalcante foi uma das modelos clicadas por Rodrigo Freitas
O dançarino Jean Tsunami posou para o projeto Cotidiano Nu

Não, não estamos falando de nudes enviados pelo Whatts App com segundas intenções. Aqui, elas e eles deixam claro: fazem um trabalho artístico. “Nudes carregam conotação sexual forte. Na fotografia sensual, o foco não é erótico. Não que o erótico seja um problema, mas não dá para classificar assim algo que não é”, explica Lara Beatriz, 20, que é estudante de Medicina Veterinária e já posou para diversos fotógrafos em Salvador.

Cláudia Carvalho posou para o Cotidiano Nu

O curioso é que parte dos artistas desse ramo se descobriu ao clicar pessoas em poses sensuais. Muitos com amigos, vizinhas ou até a própria namorada. “Eu tinha uma câmera velha em casa. E tinha uma amiga que colocava fotos sensuais no Instagram. Chamei para um ensaio e ela topou. Criei o perfil. Outra amiga viu e pediu para fazer fotos também. Não parei mais!”, conta Yuri Matos, 28, que começou há um ano e já tem 6,1 mil seguidores na conta Nu Ou Quase (@nuouquasefotografia).

Lara posou também para o projeto Nu ou Quase

As inspirações e referências aparecem de todos os lados e épocas. Desde as pin ups e fotografias muito antigas até artistas brasileiros que iniciaram trabalhos semelhantes no Instagram há mais tempo como @henriquecesar, @cesaroliveiracosta e @adaltojr.

Bruno Vasconcelos para as lentes de Diego Fernandes, do Cotidiano Nu

“A fotografia sensual é muito antiga. Usamos referências do passado, adaptamos estéticas”, explica Lara. “Me inspiro em mulheres empoderadas: Cleo Pires, Ray Mattos, Jade Baraldo…”, aponta Larissa Amorim, 27.

Larissa Paixão também foi clicada por Rodrigo Freitas

O mundo virtual, de acordo com Yuri, é fundamental para o movimento. “A internet facilita a divulgação”, diz ele, que é formado em design e largou a profissão para produzir ensaios. Entre os profissionais entrevistados nesta reportagem, o preço de uma sessão variava entre R$ 150 e 800.

Roberta Avelino foi uma das modelos do Cotidiano Nu

Para a estudante Dayane Cruz, 22, na verdade, coincidiu de o Instagram surgir num momento em que as mulheres estão aceitando mais o próprio corpo: “Elas estão querendo se mostrar sem vergonha e os fotógrafos fazem belos trabalhos”, acredita ela, que namora com um dos artistas, Rodrigo Freitas, de 23 anos, que  lançou o perfil @rrfreitas_.

 

 

 

Carlos Izaias e o namorado Jonatas para o projeto Descobertosss

No início, Dayane tinha um pé atrás com o namorado fotografar meninas. Depois que passou a posar, indica a ele potenciais modelos e posa para outros fotógrafos. “Teve um dia que outro fotógrafo fez um ensaio dela lá em casa. Eu estava no quarto editando um material e eles usaram outro cômodo”, lembra Rodrigo.

Nana Carneiro posou para o Nu ou Quase

“Eu confio 100% no trabalho de Rodrigo. Tanto que apoio: ajudo a escolher fotos, opino nas edições e indico modelos”, confirma Dayane. No caso de Larissa, a aceitação do namorado foi um pouco mais complicada. “Foi difícil ele aceitar minha vontade de ser fotografada nua e ainda postar nas redes sociais”, lembra. Mas, pouco a pouco, isso vai mudando. “Sempre fui ligada à luta pelos direitos das mulheres. Gosto de usar o corpo como expressão da minha identidade. Eleva a autoestima”.

Carlos Izaias e o namorado Jonatas para o projeto Descobertosss

Ciúme, aliás, é até fácil de administrar diante das cobranças sociais. O pior mesmo é o preconceito, que muitas vezes parte de amigos e da família. “É uma quebra de paradigmas fazer um ensaio nu e postar no Instagram”, diz Larissa. “Muitas pessoas acham que você não está ‘se dando o valor’. É complicado”, conta.

Gabriela Dória, fotografada por Rodrigo Freitas

Choque
Quando fez o primeiro ensaio, Lara refletiu muito antes de postar. Não avisou à família e teve de lidar com a surpresa da mãe. “Ela levou um choque. Hoje não condena, mas também não apoia”, ri a modelo.

Até os fotógrafos enfrentam prejulgamentos. “Eu tinha muita vergonha de minha mãe, mas hoje ela é quase minha assessora. Procura locação, indica clientes…”, admite Yuri.

Não falta gente para dizer às modelos que os ensaios são um primeiro passo para a prostituição. Não falta gente para acusar os fotógrafos de se aproveitar da atividade que escolheram. As moças sofrem mais. “É cada mensagem que recebo que nem vale a pena contar”, lamenta Lara.

Dennis Bastos para o Descobertosss

Mas os fotógrafos também recebem críticas, algumas em forma de brincadeira. “Ouço muito os familiares dizendo que meu trabalho é bom porque vejo mulher nua. Essa é uma visão machista. Isso é péssimo”, observa Rodrigo.

“Quando tem um comentário assim e o seguidor é desconhecido, eu bloqueio logo. Quando é amigo, vou no direct (mensagens diretas) e tento conscientizar”, diz Yuri.

Algo em que todos os entrevistados desta matéria concordam éque é preciso conhecer bem o fotógrafo antes de contratar. “Há casos por aí de assédio. Tem que buscar indicações e referências e saber se o trabalho tem um conceito”, explica Yuri.

E quando a dificuldade parte do próprio Instagram? Não são poucas as vezes que o aplicativo remove fotos e, às vezes, todo o perfil por conta de conteúdo que, de acordo com sua política, seria impróprio. “O app faz querer acreditar que fazemos algo de errado”, diz Yuri, que partiu para a sua segunda conta depois que foi “derrubado” e perdeu todos os seguidores.

Simei Miranda para o Descobertosss

Masculino
Curioso (e quase óbvio) é que o preconceito é muito mais direcionado às meninas. Perfis que fazem fotos artísticas do nu masculino costumam sofrer menos perseguição. Os modelos contam que ouvem outros tipos de comentários. “Toda a repercussão que tenho é positiva. Dizem, no máximo, que sou ‘corajoso’”, afirma Bruno Vasconcelos, 21, que é praticamente um ativista do nu.

Ele começou a posar nu no início do ano passado e se apaixonou pelo que chama de “liberdade do exibicionismo voltado à arte ou não”. E quer quebrar tabus. “Todo mundo tem corpo e não é algo pra se envergonhar”, ensina. Mas ele sabe que não é fácil. “Sobretudo, é preciso ser coragem”, admite.

Um dos fotógrafos que registrou Bruno administra o perfil Cotidiano Nu (@cotidianonu) e tem a mesma vontade de quebrar preconceitos. “Nudez é um tabu que criou raiz. A cada ensaio passo a acreditar ainda mais no potencial de desconstruir não só esse tabu, mas todos os outros”, diz Diego Fernandes, de apenas 18 anos.

Barbara Anjos para o Nu ou Quase

No caso de Carlos Izaias Gonçalves, 25 anos, os ensaios costumam fazer bastante sucesso. Um deles, em que posou com o namorado, Jonatas, teve projeção internacional. “Ele nunca havia feito fotos profissionais e esse ensaio chegou a ser compartilhado por um dos maiores fotógrafos do estilo”, diz Carlos, referindo-se ao artista espanhol Jon Gasca, do perfil Hoscos (@hoscos), com mais de 330 mil seguidores.

A imagem é do fotógrafo baiano Felipe*, de 24 anos, que mantém a conta Descobertos (@descobertosss) no Instagram. Ele começou a pedido de uma amiga, que havia acabado de ter um filho e queria registrar as deformações que o corpo sofreu. Aí ele despertou seu olhar para o nu. Ultimamente, se especializa em corpos masculinos. “Fui desenvolvendo um olhar mais específico. Comecei a estudar a relação do corpo humano com moralismos, inclusive a censura estúpida do Instagram”, critica o rapaz, que preferiu não ser identificado, por isso é citado aqui com nome fictício.

 

 

Simei Miranda para o Descobertosss

Geração
Uma coisa que chama a atenção é o fato de boa parte dos fotógrafos e dos modelos ser muito jovem. Parece que há uma geração que enxerga o nu de outra forma. Não só despido de preconceitos, mas carregado de empoderamento. Jovens, porém, não são regra. O público que contrata ensaios varia bastante. E não só na idade.

“Já fotografei advogadas, médicas, estudantes… A idade varia”, afirma Rodrigo. Mas, porque, então, os perfis do Instagram têm, na maioria, fotos de mulheres mais novas? “Porque elas liberam mais para publicação. As que já têm carreiras consolidadas não querem se expor. Outra geração”, explica Lara.

Workshop
Aos 20 anos, Lara Beatriz se sente tão segura com as câmeras que até promove workshops: “As meninas me diziam que era lindo, mas que não sabiam como fazer. Aí mostro como é um ensaio e as formas de encontrar os melhores ângulos”.

Para ela, não existe receita de bolo. “Não monto pose. Sugiro algumas coisas e a pessoa faz do jeito dela”. Basta ter consciência corporal e noções básicas de posicionamento. “Qualquer pessoa pode. Só é bom saber se o trabalho do fotógrafo combina com o seu estilo”, diz Yuri.

Por Alexandre Lyrio Rede Bahia/Correio 24 Horas

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